Dicas e Cuidados

Aqui compartilhamos alguns conhecimentos e desmistificamos algumas crenças.

Por Gladiston Zacharczuk

A afiação consiste simplesmente em desbastar a parte onde se quer colocar corte, esfregando e mantendo um ângulo de inclinação da lâmina em relação à superfície abrasiva para a formação do fio.
Não importa se você esfrega a faca na pedra ou a pedra na faca, se você vai pra frente ou pra trás, se você faz movimentos circulares ou não, isso são maneiras diferentes de se fazer a mesma coisa. Procure desgastar a pedra por igual.

Antes de começar a afiar uma faca, um facão, um machado, etc, é importante saber como e porquê estas ferramentas cortam.

Cortam porque possuem uma aresta cortante chamada de fio.

Qualquer faca de qualquer aço pode ser afiada a ponto de fazer barba, mas quanto tempo ela vai continuar fazendo, isso depende do aço.

O corte será tão duradouro quanto à resistência ao desgaste do fio.
A “faca” será tão mais cortante quanto mais aguçado for o fio. Mas por outro lado, a durabilidade do fio pode ser comprometida pela possibilidade deste dobrar ou até mesmo quebrar quando submetido a uma pressão ou um golpe que supere a elasticidade e resistência do fio.

Por isso as ferramentas diferentes são afiadas com ângulo de corte diferentes então:

FinalidadeÂngulo do Corte
Navalhas, bisturis:14º – 17º
Facas para cortar carnes:17º – 20º
Facas de caça, facões, cutelos:20º – 30º
Machados:30º – 36º
Talhadeira:40º – 60º

Portanto para uma boa afiação, o ângulo de corte do fio deverá ser tão aguçado, quanto às qualidades do aço permitir. Sabendo disso vamos a afiação:

A maneira mais usual e caseira é usando as conhecidas pedras de afiar. Existem uma grande variedade de pedras naturais e artificiais com durezas, porosidades, granulometria e tamanhos diferentes, logicamente com rendimentos diferentes.

É fundamental ter em mãos uma boa pedra de amolar.

1- Antes de começar a afiação é aconselhável preparar a pedra. Arredonde as arestas da pedra para evitar que na hora do desbaste um descuido provoque um risco indesejável. Isto pode ser feito num chão de cimento, ou com outra pedra em seguida ela deverá ser impermeabilizada usando-se vaselina sólida derretida sobre ela pelo calor de um secador de cabelos até a saturação. Por ocasião do uso bastará um pouco de água.

2- Prenda a pedra em uma posição confortável para facilitar o trabalho, pode ser numa morsa, encaixe ou suporte.

3- Veja se o corte está muito danificado, se estiver comece com o lado mais grosso da pedra (para remoção mais rápida). Com a pedra fixada, lubrifique-a com um pouco de água, (isso serve para que o material retirado não fique emplastado e também para diminuir a agressividade da pedra resultando num acabamento mais fino) passe a faca na pedra mantendo o ângulo desejado, ex: para um fio de 20 graus a inclinação em relação à superfície da pedra será de 10 graus, passe quantas vezes for necessário dos dois lados do fio. Observe se ele está ficando uniforme. No início passe com mais força, e quando você sentir que no fio está se formando uma fina e continua rebarba, gradativamente diminua a força e de forma mais suave termine a primeira remoção, isto serve para diminuir a rugosidade. E lembre-se: Mantenha o ângulo.

4- Agora é só repetir a operação com o lado mais fino da pedra, terminando esta operação passando a faca ora de um lado ora do outro, com leveza, para apurar a qualidade do fio. Neste ponto, a sua faca já esta satisfatoriamente afiada. Para melhorar ainda mais, pode-se usar uma chaira ou uma pedra mais fina para diminuir ainda mais a rugosidade, deixando-a excelente para o uso profissional.

5- A partir daí, para ferramentas mais delicadas ou para cortes mais precisos, existem pedras mais finas ou se pode usar uma lixa de grana 800 ou mais fina enrolada numa madeira. Depois disso pode-se usar uma tira de couro impregnado com abrasivos, desta vez passando a faca no sentido sempre contrário ao do corte. Do mesmo jeito que o barbeiro faz para afiar navalha. Termine essa operação do lado limpo do couro para limpar o fio.

6- Para testar o fio, corte uma folha de papel. Se tiver uma falha, uma rebarbinha ou um dentinho no fio a faca logo vai enganchar denunciando a parte que precisa ser reafiada.

Aos clientes e amigos pedimos a gentileza de colaborarem com suas ideias e opiniões.

Para que suas facas possam ser usadas por anos a fio como ferramentas de grande presteza e confiança recomendamos alguns cuidados.

  • Use-a com cuidado e corte sempre sobre superfícies adequadas. Ex: tábua de madeira.
  • Manter limpa e seca: Após o uso, lave-a com água e sabão e depois a seque bem. No caso de facas com cabo de madeira, evite deixá-las de molho ou molhar desnecessariamente o cabo.
  • Não guarde a faca suja ou molhada na bainha ou estojo.
  • Para conservar a madeira do cabo, pode-se limpar a seco com uma palha de aço fina (Bombril) e aplicar cera incolor para madeira.
  • Para limpar as partes douradas, (guarda e pomo) você também pode usar palha de aço seco ou molhado, ou então um pano umedecido com polidor para metais, ex: Kaol ou Brasso.
  • A bainha pode ser engraxada e escovada.

Por Piotr Arkhipovich Zakharov e Gladiston Zacharczuk

Apesar de não ensinar, nem nunca ter oferecido aulas de cutelaria, sempre recebemos insistentes pedidos de pessoas interessadas em aprender como se faz uma faca artesanal. Reiteramos a nossa posição de treinar apenas nosso corpo de artesãos. Mas em respeito e para retribuir o apreço nesta seção colocamos algumas considerações e orientações práticas. Esperamos assim contribuir com profissionais e iniciantes do ramo.

Aço: É uma liga de ferro, carbono e vários outros elementos químicos; produto da fusão do ferro gusa, com adição de outros metais ou elementos químicos misturados. A proporção em que o ferro, o carbono e os outros elementos químicos entram na sua composição resulta nas características de cada tipo de aço.

Muitos acreditam que para produzir aço é necessário partir do minério de ferro, e por isto só pode ser feito em grandes usinas siderúrgicas. Na verdade pequenas e grandes fundições preparam aços especiais a partir de sucata.

Aço Inox: É um tipo de aço que contem no mínimo 11% de Cromo em sua composição, são importantes por apresentarem resistência à corrosão e propriedades mecânica superiores aos aços comuns em temperaturas elevadas. Entretanto nenhum material é completamente inoxidável. A resistência à corrosão está associada ao fenômeno de passivação, que é a formação de uma camada extremamente fina, invisível a olho nu, contínua, resistente e impermeável, formada sobre a superfície do aço devido à combinação do oxigênio do ar com o cromo. Outros elementos como o níquel, o vanádio ou o molibdênio, por exemplo, podem ser empregados em conjunto com o cromo para aumentar sua eficiência.

Aço forjado: Qualquer aço pode ser forjado. Se for aço vagabundo, continuará vagabundo.

Aço puro: Não existe. Aço é uma mistura de ferro mais outros metais ou metalóides em variadas proporções, dependendo da finalidade a que se destina.

Aços alemães, suecos, brasileiros, etc: Não existem. Aços não são classificados por nacionalidade. Em país nenhum do mundo, conseguiram fazer um aço tão bom que seja ótimo tanto para, molas, talhadeiras, facas e limas. Para cada finalidade existe um tipo de aço específico. Quem já fez uma talhadeira de uma ótima lima, deve saber disso. Se o aço, da nacionalidade que for, for muito duro, ótimo para lima, não poderá servir para mola, faca ou talhadeira, pois quebrará à toa. Também o inverso é verdade; nenhuma ótima mola pode servir para lima.

Aço Solingen: Não existe. Solingen é o nome de uma cidade na Alemanha, famosa pelas cutelarias. Nunca nenhum fabricante da cidade de Solingen declarou que o aço empregado é Solingen.

Tratamento térmico: É um conjunto de operações de aquecimento e resfriamento controlado dos metais em estado sólido, englobam uma das mais amplas faixas de temperatura dentre os processos industriais, variando desde o tratamento subzero (temperaturas abaixo de 0ºC) para estabilização dimensional ou dissolução da austenita retida até a austenitização de aços rápidos, a 1280 ºC. Além disso, diversas taxas de resfriamento são empregadas, visando permitir a obtenção da exata estrutura desejada.

São diversas as estruturas possíveis de serem obtidas a partir da decomposição da austenita. Assim as estruturas ferríticas são, em princípio, as de menor resistência e dureza, porém com ductilidade máxima, enquanto que as estruturas martensíticas são as que permitem obter os mais altos valores de dureza com correspondente sacrifício da ductilidade e resistência ao impacto.

O fundador da teoria dos tratamentos térmicos foi o cientista Russo Chernov, que descobriu os pontos críticos de transformação dos aços.

Recozimento: O recozimento visa reduzir a dureza do aço, aumentar a usinabilidade, facilitar o trabalho a frio, aumentar a temperabilidade do aço ou se obter microestruturas ou propriedades desejadas.
Há basicamente três tipos principais de recozimento: Recozimento Pleno / Recozimento Subcrítico / Esferoidização.

Forjar: É um processo que consiste em alterar a forma do metal quente através de golpes de um martelo ou por pressão de uma prensa, no decorrer do forjado o metal se torna mais denso e se elevam propriedades mecânicas.

Têmpera: Consiste em resfriar o aço, após a austenitização, é a característica mais importante dos aços como materiais de construção mecânica e de corte, a possibilidade de desenvolver combinações ótimas de resistência e tenacidade (medida pela resistência ao impacto). A estrutura que classicamente permite tais combinações é a martensítica revenida.

Meios de têmpera: Para o controle da taxa de resfriamento de modo a temperar o aço utilizam-se diferentes meios de tempera, com diferentes capacidades de extração de calor. Os mais comuns são: água, óleo e ar, embora se possam usar outros meios líquidos ou gasosos.

Revenido: O revenido é a operação final do tratamento térmico, com o objetivo de eliminar parcial ou completamente as tensões internas, reduzir a dureza e aumentar a resiliência. Existem diversas formas e maneiras para revenir, exemplos: pelo calor interno, calor externo, banho de areia, óleo, chumbo, alumínio etc. O modo como o material é revenido define as características normalmente finais do aço.

Por Dr. Sérgio Stross Filho
FONTE REVISTA MAGNUM EDIÇÃO Nº 31 NOV / DEZ 92.

A verdadeira Justiça desfaz a interpretação doentia em prol do cidadão honesto.
É uma cretinice popular brasileira que “facas ou canivetes com mais de quatro dedos de lâmina são proibidos…”. De onde teria surgido tal ideia? Resolvi baixar meus livros da estante e mergulhar em furiosa pesquisa, até que…Eureka!

O Decreto nº 1246, de 11 de dezembro de 1936, regulamentava, entre outros itens, também o transporte de armas. Tal lei relacionava armas proibidas, permitidas para civis, regulamentava o porte das últimas e também proibia o cidadão de portar facas (ou outras lâminas) que possuíssem mais de 10 (dez) centímetros de comprimento, de onde certamente teria surgido a expressão “… mais de quatro dedos…”.

O mencionado decreto foi revogado pela Lei das Contravenções Penais e legislações seqüentes (Código Penal, Dec. Lei nº 2.848, de 1940) e Art. 19 da LCP reza que “trazer consigo arma fora de casa ou de dependência desta sem licença da autoridade…” constitui contravenção penal, comumente denominada de porte ilegal da arma.

Ora, está-se então a ver que, como não existe porte concedido para facas (e outros tipos de lâminas), jamais poderia um cidadão requerer e conseguir da autoridade competente a licença para portar uma desse tipo, daí defluiu-se que o portar uma faca (ou qualquer outro tipo de lâmina), com mais ou menos de “quatro dedos”, não enquadra o cidadão no tipo da contravenção em tela.

É um exercício simples de lógica: a contravenção é “trazer consigo arma fora de casa sem licença da autoridade competente”. Que (ais) arma(s)? Quaisquer. E, entretanto, o núcleo do artigo esclarece: “sem licença da autoridade competente”. Que licença? Uma que inexiste!

Isto nos leva a duas conclusões: 1) como a autoridade competente não concede licença para o porte de armas brancas (facas, canivetes, espadas, adagas, etc.) por ela não existir, o “trazer consigo” este tipo de objeto não se enquadra como contravenção penal; 2) é óbvio que assim que o termo “armas” no citado Artigo refere-se tão somente àquelas de Fogo!

:. DIREITO NACIONAL

O legislador pátrio, quando definiu a contravenção em tela, fê-lo pensando e Armas de Fogo, quaisquer que fossem, excluindo propositadamente todo e qualquer tipo de arma, inclusive a Branca. Tanto é assim que o festejado autor Valdir Sznick, em sua magistral obra “Contravenções”, à página 143, esclarece (“ipsis literis”): “… a existência da infração, pois, só se configura quando ocorra a falta de licença por parte da autoridade. Que autoridade? Em regra geral, a autoridade administrativa. Pela praxe, e atualmente, autoridade policial”.

Assim, poder transitar com Armas Brancas (seja lá qual for o tipo de sua lâmina) é um direito adquirido pelo cidadão brasileiro e amparado por Lei, a qual não pode retroagir. Isto tanto é verdadeiro que vejamos o que diz a obra “Dicionário Jurídico”, de autoria de Plácido e Silva: “Por isso, sob o ponto de vista da retroatividade das Leis, não somente se consideram adquiridos os direitos aperfeiçoados ao tempo em que se promulga a lei nova, como os que estejam subordinados a condições ainda não verificadas ou decididas, desde que não se indiquem alteráveis ao arbítrio de outrem”. Ora, tentar mudar a legislação nesse aspecto seria, então ignorar o direito adquirido do cidadão e / ou prestar um tributo (ou prestigiar) a arbitrariedade.

A fonte informativa, como que para corroborar o exposto, ainda cita: “… os direitos adquiridos se opõem aos direitos dependentes de condições suspensivas, que se dizem meras expectativas de direito”.

Ao pensar de forma contrária, o legislador teria que incluir numa pretensa nova lei relativa ao assunto e também considerar como proibido o porte de pedras, jornais convenientemente dobrados (cujo uso adequado é ensinado aos agentes da CIA norte-americana, transformando-os em armas mortíferas (quando atingem a garganta ou têmpora), gravatas, cintos (ou qualquer outro material que sirva de garrote), ossos afiados e até canetas esferográficas, estes dois últimos itens sendo muito usados em penitenciárias, etc. Enfim, todo e qualquer objeto perfuro-contundente teria que ser relacionado, o que seria, ademais de absurdo, um verdadeiro surrealismo e, portanto, incabível sob todas as circunstâncias do dia a dia do cidadão de qualquer lugar do mundo).

:. TRISTE REALIDADE NACIONAL

Não obstante, como já sobejamente mostrei, estar provado que o porte de Armas Brancas não se enquadra na contravenção penal constante no Art. 19 da LCP, constantemente observo (ou tenho contato com) policiais apreendendo facas, canivetes e adagas e prendendo em flagrante sob a acusação de porte ilegal de arma.
Situação triste, porém comum, nos grandes centros é a seguinte: o cidadão está em um transporte coletivo, bar, ponto de ônibus, ou mesmo a transitar pela cidade e chega a polícia (agora quase sempre acompanhada da imprensa televisionada) para realizar uma “blitz”.

Esse cidadão vê-se, subitamente, submetido à revista e, ao ser encontrada a Arma Branca, detido e, na maioria dos casos, tratado como verdadeiro marginal (inclusive repórteres ávidos em busca de promoção). Ato contínuo, o aparelho policial o coloca numa viatura, sempre sob a alegação de estar portando algo com “lâmina maior do que quatro dedos”, e o encaminha ao distrito, onde muito provavelmente será preso em flagrante por “porte ilegal de arma”.

Aqui nesta muito real situação observamos dois fatos claros: 1) a ilegalidade dos atos cometidos pelos policiais e 2) o despreparo daqueles que o orientam. Não bastasse isso, o pretenso flagrante de porte ilegal de arma ainda acarreta a mesma burocracia (e muita papelada, conseqüentemente) da verdadeira contravenção penal relativa às Armas de Fogo.

O ponto de vista da autoridade administrativa nesse assunto, como veremos mais adiante, é totalmente diferente da visão policial (ainda) deturpada sob o assunto ora em pauta. A linha de pensamento da maioria dos Promotores de Justiça Criminal de São Paulo (SP), com que conversei amiúde sobre essa questão é – entretanto – apoiada estritamente na Lei e em sua anteriormente mencionada interpretação. Ocorre que, uma vez lavrado o flagrante, gerada a papelada, etc., o trabalho que sobra fica para o cidadão honesto e para a Justiça Criminal. O primeiro deve apoiar-se no trabalho de um advogado e o segundo julgar a questão, tudo isto consumindo tempo e dinheiro, neste caso ambos do contribuinte, nesta contribuição enquadrando-se, então, todos os envolvidos: policiais, delegados, pretensos réus, advogados de defesa, Promotores, Juizes e suas estruturas. Em outras palavras, por um resquício de antiga lei, verdadeiro ranço do passado, nosso dinheiro e tempo se esvai… É triste!

:. EXEMPLOS INTERNACIONAIS

Tentando buscar uma explicação para todos esses absurdos que acontecem em nosso país relativamente às Armas Brancas, decidi consultar compêndios de leis de outros países e o único fato que encontrei foi na Lei espanhola, cujo povo historicamente sempre se armou diuturnamente com as famosas “navajas”. Recentemente, tentaram naquele país a aprovação de uma lei que entendesse por crime o porte de facas de duplo fio, NOTEM BEM, do tipo adaga, e com lâminas maiores do que 10 cm. O julgamento de tal propositura foi um verdadeiro fiasco para aqueles que a propunham: foram vencidos por unanimidade.

Ainda internacionalmente, reportando-me agora aos EUA, note-se que na cidade de Nova Iorque as leis sobre o porte ilegal de Arma de Fogo são rigorosíssimas, talvez as mais rigorosas do mundo.

O policial nova-iorquino, freqüentemente habituado a abordar elementos altamente drogados, não “dá moleza” para nada que possa constituir-se no menor tipo de armamento. Entretanto, mesmo lá, facas e canivetes, ou sejam, objetos de uso diário que eventualmente poderão ser utilizados como armas.

Querem um exemplo vivo de que acabei de expor, divulgado ao mundo inteiro? Muito bem! O 1º filme “Crocodile Dundee” mostra uma cena em que os personagens principais, vindos da Austrália, onde portava habitualmente grande faca Bowie, estava perdido e procura ajuda de um policial de patrulhamento na área urbana. Ao procurar a ajuda do policial, este lhe dá uma “carona” em seu cavalo, momento em que “Dundee” retira da parte traseira de seu cinto a grande faca (que atrapalhava sua subida ao lombo do animal) e a entrega ao policial. Juntos, seguem até a porta do hotel, onde “Dundee” desmonta e o policial lhe entrega a faca, continuando a ronda.

Salta, então, aos olhos o seguinte: fosse o porte de uma faca, mesmo grande e própria para a Defesa como aquele crime ou contravenção naquele Estado norte-americano, o policial certamente teria prendido o usuário e o objeto e mesmo Hollywood sendo – na maioria das vezes – tão fantasiosa como é, jamais permitiria tão falsa divulgação do agir de um policial urbano.

Os eternos críticos do 3º Mundo certamente pensarão e afirmarão: “” Ah! Mas isto é válido para um povo civilizado… Só mesmo nos EUA!”. Ledo engano. No próprio continente sul-americano, países como Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, etc., não orientam suas forças policiais no sentido de reter lâminas em poder de cidadãos honestos. O máximo que pode acontecer é verificar-se a ficha policial do detido e, em caso de ela estar OK, devolver a faca ou canivete”.

Na América do Norte e Europa é habitual ver-se senhores e senhoras de meia-idade, adultos e até jovens maiores de 18 anos portando canivetes nas características bolsinhas de cinto. Alguns desse tipo, como, por exemplo, o norte-americano da marca Buck 110, podem, é claro e rapidamente, transformar-se em arma mortal… Assim como o pode um simples ferro de passar roupa por qualquer outro objeto que tenha poder perfuro-contundente.

:. UM CASO NACIONAL

Ora, caros Leitores, o que presenciamos diariamente em nosso país, como conseqüência da falta de consciência da maioria das autoridades, é a simples inexistência dos direitos da cidadania, de forma que, assim, habitualmente o cidadão brasileiro é lesado gravemente pelo próprio Estado e seus agentes.

O caso que citarei a seguir, omitindo, é claro, nome do pretenso réu, consta do Processo 31/92 julgado pelo Juízo da 20ª Vara Criminal de São Paulo (SP) e mostra, felizmente, a lucidez e o fazer valer da própria Justiça, quando Juiz e Promotor são realmente esclarecidos.

Parte constante da sentença de absolvição pelo Meritíssimo Juiz de Direito, Dr. José Caetano Graziosi, referindo-se a pretensa acusação de estar o réu incurso no Art. 19 da LCP (porte ilegal de arma) por este ser detido na via pública portando canivete (agora, pasmem!) com lâmina de 8 (oito) cm, é claríssima: “… assim, nota-se que o porte de Armas Brancas não se insere no tipo penal da contravenção do Artigo 19, sendo, por conseguinte, atípica tal conduta. A entender-se de forma diferente, teríamos que toda a pessoa que adquirisse facas em lojas de supermercados estaria automaticamente infringindo aquela disposição legal ao encaminhar-se para a sua residência com as referidas…”.

O insigne magistrado, exemplo a ser seguido por todos aqueles que são incumbidos de fazer a verdadeira Justiça, ainda esclarece: “… o porte de arma concedido pela autoridade policial refere-se tão somente as Armas de Fogo Curtas, ou de mão (revólveres e pistolas). Mesmo as armas de caça, como espingardas, fuzis e carabinas, não ensejam porte de arma, mas sim licença para transporte…” Mais adiante, na finalização da sentença, a correta síntese das idéias expostas neste Artigo: “… a posse de um canivete, ainda que em via pública não se caracteriza como prática contravencional. Se for verdade que o canivete possui condições de ser utilizado em ofensa à integridade física, não é menos verdade que sem a previsão do ato administrativo que concede licença para porte, não se aperfeiçoa o tipo penal do Artigo 19 da Lei Contravencional…”.

E, como sempre neste tipo de ato policial ilícito, quem foi o maior prejudicado? O cidadão de bem, é lógico. Aquele que teve que contratar um advogado, gastando tempo e dinheiro. E o poder público, que teve que desfazer a interpretação doentia (e com muita burocracia) da autoridade policial, certamente de agentes e delegados que querem impor sua própria interpretação da lei.

Entretanto, com este caso, e com a jurisprudência nele configurada, ganham os cidadãos de bem que querem portar uma Arma Branca, seja lá por que razão for… Eu até sugeriria aos Promotores Públicos, Juizes, Delegados de Polícia, Comandantes de Polícias Militares sérios, etc. Que informasse o contido neste Artigo aos seus subordinados; creio que esta seria uma maneira inicial de evitarmos a má interpretação das Armas Brancas.

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